
Por Raquel de Freitas
Durante muitos anos, o Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, foi transformado em uma data marcada por flores, mensagens bonitas e homenagens superficiais. Nas redes sociais, multiplicam-se frases sobre delicadeza, força e beleza feminina. Embora essas mensagens possam parecer positivas, elas frequentemente escondem a essência política e histórica da data.
O 8 de março não nasceu como um dia de celebração romântica da mulher. Ele surgiu como um marco de luta por direitos, fruto da mobilização de trabalhadoras que reivindicavam melhores condições de trabalho, salário digno e participação política. Portanto, mais do que homenagens simbólicas, esta é uma data para refletir sobre desigualdades persistentes e sobre os caminhos necessários para transformá-las.
Direitos que hoje parecem naturais, como votar, estudar em universidades, exercer profissões diversas ou ocupar espaços de liderança, foram conquistados por meio de décadas de mobilização feminina. Autoras e pensadoras feministas têm insistido na importância de compreender essas conquistas como resultado de ação coletiva. A intelectual feminista Bell Hooks, por exemplo, dedicou sua obra a discutir como o feminismo precisa ser entendido como um movimento político de transformação social, e não apenas como um discurso sobre igualdade formal.
Para Bell Hooks, o feminismo verdadeiro é aquele que enfrenta simultaneamente racismo, sexismo e desigualdade econômica, pois essas estruturas se reforçam mutuamente. Ou seja, falar sobre direitos das mulheres exige olhar para as diferentes realidades que atravessam suas vidas.
Nesse debate, as mulheres negras ocupam um lugar central. Ao longo da história, elas enfrentaram uma dupla, e muitas vezes tripla, camada de opressão: por serem mulheres, por serem negras e por estarem frequentemente inseridas em contextos de desigualdade econômica. Mesmo diante dessas barreiras, mulheres negras foram fundamentais na construção de avanços sociais, culturais e políticos.
Pensadoras como Angela Davis, Lélia Gonzalez, Patricia Hill Collins e Djamila Ribeiro ajudam a compreender como raça e gênero estão profundamente interligados. Lélia Gonzalez, intelectual brasileira, denunciava ainda nos anos 1980 como o racismo estrutural invisibiliza a contribuição das mulheres negras para a sociedade. Para ela, compreender o Brasil exige reconhecer a influência da cultura afro-brasileira e o papel das mulheres negras na manutenção e reinvenção dessa cultura. Já Angela Davis reforça que não existe libertação feminina sem justiça racial e social, e suas reflexões ajudaram a consolidar a compreensão de que diferentes formas de opressão atuam simultaneamente na vida das mulheres.
Quando olhamos para a história com mais atenção, percebemos que as mulheres sempre estiveram presentes nos grandes avanços da humanidade. Na ciência, na política, nas artes, na educação e nas lutas sociais, mulheres abriram caminhos que muitas vezes lhes foram negados. Mesmo quando excluídas das narrativas oficiais, foram responsáveis por mudanças profundas na sociedade.
Hoje vemos mulheres liderando pesquisas científicas, movimentos sociais, governos, empresas e iniciativas culturais. Também vemos mulheres organizando redes comunitárias, sustentando famílias, produzindo conhecimento e transformando territórios. Cada uma dessas experiências compõe o que chamamos de protagonismo feminino; um protagonismo que não se limita a ocupar espaços, mas que também redefine prioridades, valores e formas de organização social.
Por isso, lembrar o Dia Internacional das Mulheres sem romantização significa recuperar o sentido político da data. Não se trata de negar homenagens ou reconhecimento, mas de compreender que a verdadeira valorização das mulheres passa por mudanças concretas. Isso inclui combater a violência de gênero, enfrentar desigualdades salariais, ampliar a participação feminina nos espaços de poder e reconhecer a diversidade das experiências das mulheres.
Significa também ouvir as vozes que historicamente foram silenciadas, especialmente as de mulheres negras, indígenas, periféricas e trabalhadoras. Como lembra Bell Hooks, o feminismo é, acima de tudo, um projeto de transformação social, um projeto que só se realiza quando todas as mulheres, em sua diversidade, têm condições reais de viver com dignidade, autonomia e liberdade.
Neste 8 de março, mais do que flores ou frases prontas, talvez o gesto mais importante seja reconhecer a história das lutas femininas e fortalecer os caminhos que ainda precisam ser percorridos. Porque cada avanço conquistado pelas mulheres não beneficia apenas um grupo: ele amplia as possibilidades de justiça e democracia para toda a sociedade.
Raquel de Freitas é jornalista, editora deste blog, gestora de projetos sociais, empresária, negra e de religião de matriz africana.






