
Por Raquel de Freitas
As religiões de matriz africana sempre sobreviveram sob ataque. Primeiro vieram a escravidão, a perseguição colonial, a criminalização policial, a demonização das entidades e o racismo religioso institucionalizado. Terreiros foram invadidos, objetos sagrados destruídos e sacerdotes tratados como criminosos por sustentarem saberes africanos em território brasileiro. Mas o tempo mudou a forma da violência. Hoje, um novo processo de colonização atravessa os terreiros: mais silencioso, mais sofisticado e profundamente adaptado à lógica contemporânea do mercado e das redes sociais. Não se trata apenas do ataque externo às religiões afro-brasileiras, mas da infiltração de valores coloniais dentro do próprio espaço sagrado. O que está em curso é um processo de esvaziamento da ancestralidade em nome da performance, da estética e do consumo espiritual.
O terreiro sempre foi mais do que um espaço religioso. É território de memória africana, resistência negra, reconstrução identitária e preservação de epistemologias ancestrais. Como apontava Muniz Sodré, as culturas de matriz africana organizam-se a partir de outra lógica civilizatória, centrada no corpo, na oralidade, na coletividade e no axé enquanto força vital comunitária. O saber de terreiro não nasce da pressa, nem do espetáculo, nem do individualismo, e sim do tempo, da convivência, da escuta, da hierarquia e da permanência. Nas tradições afro-brasileiras, aprender exige atravessamento, silêncio ritualístico, compromisso comunitário e respeito aos mais velhos. A oralidade não é ausência de conhecimento escrito, mas uma tecnologia ancestral de transmissão da memória.
Muitas vezes, quando esse debate surge, aparece também uma tentativa de equiparar o atual processo de banalização religiosa ao sincretismo histórico vivido pelas religiões afro-brasileiras. Mas são fenômenos profundamente diferentes. O sincretismo, em grande parte, nasceu como estratégia de sobrevivência diante da violência colonial. Povos africanos escravizados precisaram esconder seus cultos sob imagens católicas para preservar suas divindades, seus rituais e sua continuidade espiritual. Foi uma tática de resistência. Uma adaptação forçada pela perseguição, pelo terror e pela necessidade de manter viva a ancestralidade africana em um ambiente hostil.
Mesmo sincretizadas, muitas tradições mantiveram fundamentos, hierarquias, oralidade e vínculos comunitários profundamente africanos. O sincretismo não significou necessariamente abandono da ancestralidade, mas, muitas vezes, sua proteção possível dentro de uma sociedade escravista e racista. O fenômeno contemporâneo é diferente. Não nasce da necessidade de sobrevivência coletiva, mas da lógica de mercado, da espetacularização da fé e da busca por validação individual. Não é uma adaptação para preservar fundamentos. Em muitos casos, é o próprio esvaziamento deles. O que antes era estratégia de resistência hoje corre o risco de ser substituído por estratégias de consumo.
Por isso, o avanço da lógica digital sobre os terreiros produz uma ruptura profunda. A explosão de “feituras de santo” aceleradas, iniciações sem fundamento ancestral sólido, abertura indiscriminada de casas religiosas e sacerdócios instantâneos revela a formação de uma verdadeira indústria espiritual. Virou “moda”. O santo vira mercadoria, o axé vira marca e mediunidade vira conteúdo. Rituais antes protegidos pelo segredo e pelo fundamento passam a ser transformados em entretenimento para engajamento. Há uma corrida por validação virtual, seguidores, autoridade estética e influência digital que substitui, em muitos casos, a legitimidade construída pela ancestralidade.
Esse processo dialoga diretamente com aquilo que Lélia Gonzalez denunciava como efeitos permanentes da colonialidade sobre os corpos e culturas negras. A lógica colonial não desaparece; ela se reorganiza. Aprende a consumir aquilo que antes perseguia. É importante dizer que problema não é a internet, nem a modernização dos meios de comunicação. Povos de terreiro sempre souberam reinventar formas de sobrevivência. Na verdade, o problema surge quando os valores coloniais passam a reorganizar o próprio entendimento do que é espiritualidade afrodescendente.
A dificuldade de perceber esse processo também revela o baixo nível de letramento racial da sociedade brasileira. Muitas pessoas ainda compreendem o racismo apenas como ofensa explícita, discriminação direta ou violência física. Mas o racismo também atua de maneira simbólica, cultural e epistemológica. Ele aparece quando saberes africanos são deslegitimados, quando a tradição oral é tratada como inferior, quando o fundamento ancestral é substituído pela lógica do mercado e quando referências negras passam a ser aceitas apenas depois de esvaziadas de sua profundidade política e civilizatória.
Sem letramento racial, torna-se difícil compreender que o embranquecimento dos terreiros não acontece apenas pela presença de pessoas brancas nas religiões de matriz africana. O problema central está na reprodução de valores coloniais que deslocam a coletividade, a ancestralidade e a oralidade africana para dar lugar ao individualismo, à performance e à mercantilização da fé. Como alertava Lélia Gonzalez, o racismo brasileiro é sofisticado justamente porque opera muitas vezes pelo apagamento e pela assimilação cultural. A violência nem sempre destrói frontalmente. Às vezes, ela incorpora, esvazia e ressignifica aquilo que antes combatia.
Nesse cenário, cresce também uma tendência extremamente preocupante: a romantização do chamado “médium consciente”. Popularizada nas redes sociais, essa ideia vem sendo usada para relativizar fundamentos históricos da incorporação nas religiões de matriz africana. Em muitos casos, o discurso do “controle absoluto” da entidade transforma a experiência mediúnica em encenação performática, abrindo espaço para teatralização, personalismo e até charlatanismo religioso. A entidade deixa de ser presença sagrada para se tornar personagem administrado pelo ego do médium. Esse fenômeno produz consequências graves, além de desrespeitar fundamentos ancestrais, contribuindo para o descrédito das próprias entidades espirituais, banalizando rituais e reduzindo experiências sagradas a exibições públicas voltadas para entretenimento digital.
Não se trata de negar as complexidades da mediunidade, tema historicamente diverso entre diferentes tradições afro-brasileiras, mas de denunciar a forma como determinados discursos contemporâneos têm sido apropriados para legitimar performances vazias, sem fundamento ritualístico, sem compromisso ético e sem ancestralidade. A mediunidade, nas tradições africanas, nunca foi instrumento de autopromoção. Ela é serviço, responsabilidade, entrega, coletividade e compromisso com o exercício da caridade. Quando a figura do médium se torna mais importante que a comunidade, mais importante do que o terreiro e mais importante do que a própria entidade, instala-se uma lógica profundamente colonial: a centralidade do indivíduo acima do coletivo.
É justamente esse deslocamento que revela o novo branqueamento simbólico dos terreiros. Não necessariamente pela cor da pele, embora isso também aconteça, mas pela substituição de valores civilizatórios africanos por valores alinhados à racionalidade colonial moderna: individualismo, monetização da fé, estetização da espiritualidade e consumo rápido do sagrado. Abdias do Nascimento já alertava que o genocídio do povo negro também ocorre pela destruição de seus sistemas culturais, religiosos e simbólicos. O apagamento da ancestralidade africana não acontece apenas quando um terreiro é atacado fisicamente, mas também quando seus fundamentos são esvaziados, distorcidos ou transformados em produto.
Hoje, o algoritmo disputa espaço com a ancestralidade, a estética disputa com o fundamento, e a performance com o axé. Enquanto isso, sacerdotes antigos, griôs, mães e pais de santo com décadas de conhecimento tradicional vão sendo silenciados por uma cultura digital que privilegia aparência, viralização e consumo. O que está em disputa não é apenas a imagem das religiões de matriz africana, mas sua memória, continuidade e africanidade.
Defender a oralidade ancestral não significa negar transformação. Significa compreender que existem mudanças que fortalecem a tradição e outras que apenas reproduzem novas formas de colonização. Porque nem toda modernização é avanço. Às vezes, ela é apenas apagamento com filtro e boa iluminação para redes sociais.
Raquel de Freitas é jornalista, com especialização em História e Cultura Afro-brasileira.







