
Você sabia que, no século XIX, a cidade de São Luís emergiu como um dos principais centros de produção e disseminação de obras traduzidas no Brasil? É quase certo que não. Porque esta história, estranhamente, permaneceu esquecida por mais de 100 anos. Durante a décima nona centúria, um rol de mais de 250 obras estrangeiras foram traduzidas por intelectuais maranhenses e editadas por empresas gráficas de São Luís, contribuindo significativamente para o enriquecimento cultural e intelectual da região.
Minha jornada nesse universo teve início em 2014, quando me chamou a atenção a profusão de obras traduzidas por maranhenses. Em 2019, lanço o livro “Tradutores inusitados: Registros da influência francesa na produção editorial maranhense em meados do século XIX”.
Três anos depois, em 2022, tive a satisfação de publicar “Maranhão, Província tradutora: livros e tradutores em São Luís do séc. XIX”. A obra é resultado de minha pesquisa de doutorado, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Infelizmente, enfrentei desafios logísticos para o lançamento da obra, que misturou o recebimento tardio e limitado de exemplares, com uma viagem que fiz à Europa, o que impediu o lançamento do livro.
Um dos momentos marcantes dessa história editorial é a edição maranhense do clássico “Os miseráveis”, de Victor Hugo, publicada em 1862. Esse feito é notável por ter ocorrido quase simultaneamente à famosa edição parisiense, demonstrando o entusiasmo e a rapidez com que os maranhenses acolhiam as grandes obras da literatura mundial.
Outro tesouro que merece destaque é a “Biblioteca Dramática”, de Antônio Rego, uma coleção de doze peças teatrais francesas. Essas peças, que gozavam de grande popularidade nos palcos europeus, foram traduzidas com denodo e oferecidas ao público maranhense, enriquecendo o repertório cultural e artístico da época.
E não para por aí. Além dos renomados Artur Azevedo, Odorico Mendes e Gonçalves Dias, a pesquisa revela a existência de outros 42 tradutores maranhenses, ampliando um pouco mais o panorama intelectual e literário da Terra das Palmeiras.
A expressiva quantidade de obras estrangeiras traduzidas para o português e em circulação na capital maranhense no século XIX evidencia que a tradução constituía um setor proeminente entre as práticas editoriais da época. E um pouco mais que isso, também: caracterizou um campo de força, em que diversos agentes se irmanaram, aos moldes de um movimento intelectual. A especialização nessa atividade indica, ademais, a presença de um espaço onde confluíam múltiplas forças culturais e políticas, alinhadas a um projeto de construção e exaltação dos valores nacionais.
Por meio dessas publicações, São Luís se converteu em um centro de disseminação cultural, onde a tradução transcendia o mero ato linguístico, representando um elo entre distintos universos e perspectivas.
“Maranhão, Província tradutora” é um convite à exploração da efervescente cena cultural ludovicense do século XIX; uma era luminosa em que a cidade, mais do que importar, reinterpretava e revitalizava obras internacionais, reafirmando sua posição como uma das capitais culturais do Brasil.
Com suas 458 páginas, ele não somente pôs em evidência e explicou as forças que proporcionaram o aparecimento de obras traduzidas e publicadas em solo maranhense, como também deu início à história da tradução para fins editoriais na região, homenageando, assim, o legado dos eruditos que a ergueram.
“Maranhão, Província tradutora” foi chancelado pela Editora da UFMA (EDUFMA), e conta com o prefácio do Prof. Dr. Silvano Alves Bezerra da Silva, especialista nos processos gráficos e editoriais brasileiros.
Roberto Sousa Carvalho é
bibliotecário-documentalista; mestre em Estudos Editoriais; doutor em Estudos Portugueses (área de especialidade “História do Livro e Crítica Textual).
